Na cultura Japonesa, uma técnica centenária de restauração de vasos de cerâmica conhecida como Kintsugi, que quiser dizer “emenda de ouro”, trouxe uma metáfora de aplicação para a vida.

Tudo começou há cinco séculos, quando um guerreiro japonês, Ashikaga Yoshimasa, teve sua tigela de cerâmica quebrada e, sendo o objeto indispensável para a cerimônia do chá, decidiu enviá-lo à China para conserto. Quando o objeto retornou, Ashikaga percebeu que as partes estavam fixadas com grampos, de maneira bem tosca, e ficou insatisfeito com o resultado do trabalho. Então, decidiu recorrer aos artesãos de seu país, que descobriram uma forma mais duradoura e eficaz de transformação da tigela. A técnica consistia em unir os fragmentos com verniz e pó de ouro, deixando a peça ainda mais valiosa e única, muito embora as cicatrizes ficassem aparentes.

Na Bíblia, vemos diversas promessas de restauração de Deus ao seu povo. Na passagem encontrada em Jeremias 18:4-6, lemos: “A palavra do SENHOR, que veio a Jeremias, dizendo: Levanta-te, e desce à casa do oleiro, e lá te farei ouvir as minhas palavras. E desci à casa do oleiro, e eis que ele estava fazendo a sua obra sobre as rodas, como o vaso, que ele fazia de barro, quebrou-se na mão do oleiro, tornou a fazer dele outro vaso, conforme o que pareceu bem aos olhos do oleiro fazer.


Então veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Não poderei eu fazer de vós como fez este oleiro, ó casa de Israel? diz o Senhor. Eis que, como o barro na mão do oleiro, assim sois vós na minha mão, ó casa de Israel”.

Aqui, Deus leva Jeremias à casa do oleiro e, enquanto o profeta observa o trabalho do artesão, Deus afirma: Eu sou o oleiro e o meu povo é vaso de barro que está em minhas mãos. Eu conserto, eu refaço.
Deus é um expert em restaurar vasos quebrados. A ideia que temos é a de que nada em nós servirá de matéria-prima, que tudo deve ser jogado fora e exterminado, mas, na verdade, restauração significa recuperar algo que já existe.

Vivemos em um mundo onde tudo se tornou descartável: pessoas, relacionamentos e até a vida. Mas Deus é aquele que não joga fora a obra de suas mãos! Muito pelo contrário, ele conserta e isso não quer dizer que o processo seja rápido ou indolor, afinal, cada vaso tem sua história e um fim determinado para seu uso.

Não devemos ter vergonha de apresentar nossos cacos a Deus, pois Ele é o único que pode, com amor, juntar os nossos pedaços e nos refazer para a Glória Dele. Ele sabe que cada pedaço é importante, cada parte de nossa história conta e não deve ser excluída, pois são cicatrizes. Cicatrizes nada mais são do que marcas de cura. Um vaso, o qual passou pela técnica do Kintsugi, tem ranhuras evidente em sua cerâmica, mostrando que um dia foi quebrado, mas restaurado com ouro pelas mãos de um artista cuidadoso.

O pecado nos danifica. Os nossos erros, as nossas vergonhas, as nossas dores, tudo isso compromete o design original de quem nós fomos feitos para ser em Cristo Jesus, mas a Palavra diz: “…portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação. As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas!” (2 Coríntios 5:17).

Que possamos nos submeter ao processo de restauração do Pai, por meio de Cristo Jesus. Apresentar a Ele os pedaços de nós mesmos que fomos juntando pela caminhada e deixar que Ele nos faça um vaso novo; com cicatrizes sim, mas ainda mais valiosos, resilientes e ainda mais belos.

Quanto à história de Ashikaga Yoshimasa, houve quem ponderasse que a vida da tigela começou quando caiu e se quebrou: “Para cada fim, um recomeço”.